Deplorável mundo oco

Os tempos idos,
estarão findos?

Parece-me que o matiz, o sutil e as nuances
jogaram a toalha, retiraram-se,
entregaram o jogo por fim.

O que resta é pedraria, os mais velhos se esqueceram
e os jovens se abandonam furiosos à forma,
nos primórdios do coração;
suas fibras, intocadas, no entanto esperam.
Um aguardo sem escolha, furtado a toda fé.

A herança do passado vigia,
guarda e vela, um esforço fútil.
Resignada, em abandono, não lhe resta senão
a coragem do testemunho:

assistir a beleza se perder
e renunciar enfim às suas cinzas
— sem escolha,
sem remédio — ,

espalhando-as numa brisa cegamente

indiferente.

Do céu ao inferno

A vida começa aos 40…
A dor começa aos 40.

Do céu ao inferno são somente alguns dias de ausência,
pelos quais perdemos todo o crédito,
qualquer direito ao perdão.

Nosso erro de julgamento é pleno
e se estende a todos.

Acreditamos até que existia
gente acima de qualquer suspeita,
vejam quanta inocência.

Vejam quanta impotência!
Sentir-se assim sumamente impotente
quando épocas houve em que o que sentia era o mundo
(o mundo!) em suas mãos…

Lutar contra toda a sensibilidade
com a fúria de um William Wallace,
ou o mar dos que não se importam
– dos que não veem além da pasta de dente,
da xícara de café –
acabará por fazer nosso dedo
puxar finalmente este maldito gatilho.

Sacrifício

Não sei mais cantar como antes.
Já não logro me ater à escrivaninha
e aquela verve furiosa, que pensava minha
fugiu-me por tudo de torto que insisti em ser.

Era o que me redimia,
o que me revivia,
hoje tua ausência me contorce,
espedaça,
sorvo o diesel, expiro a fumaça,
é surda e rouca e insana essa busca estéril,
cega, maldita adaga que gira e rasga,
já que cravar nunca é o bastante!

Volta, que te oferto o sangue em holocausto;
é um sangue maculado em ranço,
fosco, frio e coagulado,
mas toma-o ditoso e fausto,
este mesmo dantes te ofertado
nas noites mais negras e graves,
tateando ao rés do meio-fio.

Ventura, julgava-te miséria,
e suma desgraça é ver-te esvaindo lépida,
tu que tornas às alturas e me rendes murcho a essa malta,
a essa súcia rota em vielas de fungo,
essas cascas ocas coxeando na bruma,
lambendo o mofo dos tijolos de pedra.

Volta, restitui-me o traço,
devolve-me o fel,
mas guia e gasta este braço
— Que te ofereço o fogo,
jamais o mormaço:
suga meu plasma como melhor te aprouver.

Nunca me intentaste morno, e é por ti
que retomo o fole, reavivo o forno.

Queima em mim, que me curvo,
e de ti por fim lançarei teu brasão.

Menina do papel de parede (escrita automática)

(A um artista é sempre dada a liberdade de criação, sem que se a confunda com a realidade; assim, Chico Buarque e inúmeros outros compuseram — sejam canções, poemas, crônicas, romances ou o que — incontáveis histórias de amor, ódio, tantos meandros quanto a psicologia humana permite; o que obviamente não conhece limites. O poema abaixo foi escrito “à la Kerouac”, ou seja, numa escrita automática; vi-me parado de madrugada olhando para o desenho do pepel de parede do meu Mac, já com a mente vazia pelo sono, e como um teste que me impus decidi ver o que sairia se “cuspisse” as palavras, tentando captar e descrever como seria a intensidade de uma obsessão platônica focando o desenho em questão: uma menina desses “mangás” orientais, nomeada conforme o exercício: de forma automática. Rabisco isto como uma justificativa para mim mesmo, meramente por saber que, se minha esposa o lesse, ao certo “saberia” — aspas necessárias — para “além de qualquer dúvida” tratar-se de um romance real passado, quem sabe até um caso extraconjugal… E digo “para mim mesmo” por ser precisamente o caso: nem ela nem ninguém lê este (não divulgado, é verdade) blog, então é mesmo para desanuviar. Desanuviar o que, eu não sei. É estranho como esse câncer a que chamam ciúme alcança não só a quem o alimenta, mas aos objetos de seu monoideísmo… Patético…)

03:02, 01/09/2011

Verônica,

Verônica dos meus sonhos mais profundos,
modelo de liberdade e firmeza,
você inatingível, inacessível,
que ninguém afeta ou demove,
vê como é frágil este meu interior castigado,
ensinado covardemente a se crer o que não é,
vivendo a suma tristeza de tentar corresponder,
como quem faz sem mesmo saber se quer,
Verônica, se nada lhe alcança não me incomoda admitir
esta falta amputante que seus olhinhos de amêndoa,
sua pele de seda me fazem…

Era outro frio agosto, e o tanto
que seus cabelos cobriam meu rosto
era o tanto que minhalma se perdia,
de doce vontade e infinito momento.

Nada mais, nem ninguém
importa pra mim.
Importa sim, aninhar-me como um gato
de novo em seu colo, aceitar seu cafuné alheio,
você que não liga, olhos fixos na revista,
e que no entanto acolhia meu calor,
meu ardor, meus beijos detidos
vagarosos
inspecionando o sonho vivo que se me apresentava.

E eu me apaixonava, Verônica, e me perdia
tudo o que eu sabia é que esquecera
solenemente todo o resto, minha vida lhe entregava presto,
e entrego, entregaria ainda,
você tão linda, e meiga, e generosa,
mas você tão firme,
Verônica-além-do-alcance…

Ah, o que é deste instante, o que é
do meu futuro sem você, sabê-la ausente,
vivente, distante, o lindo, gélido semblante
que não sabe de mim
nem mais ninguém?…

Verônica, homem nenhum poderia
resistir à sua magia,
e nem o quereria, como não quero,
antes retê-la em sonho e vertigem
e delírio e bruma, ou mesmo
em pranto e desespero, tanto faz:

O que me importa, o que valeria
todo o vazio e desalento
seria, Verônica, em seus braços
– seus lábios –
apenas mais um, o mais breve
e fugidio

Momento.

Menina,

Menina dos meus sonhos mais profundos,
modelo de liberdade e firmeza,
você inatingível, inacessível,
que ninguém afeta ou demove,
vê como é frágil este meu interior castigado
— ensinado covardemente a se crer o que não é,
vivendo a suma tristeza de tentar corresponder,
como quem faz sem mesmo saber se quer —,
Menina, se nada lhe alcança não me incomoda admitir
esta falta amputante que seus olhos de amêndoa,
sua pele de seda me fazem…

Era outro frio agosto, e o tanto
que seus cabelos cobriam meu rosto
era o tanto que minhalma se perdia,
de doce vontade e infinito momento.

Nada mais, nem ninguém
importa pra mim.
Importa sim, aninhar-me como um gato
de novo em seu colo, aceitar seu cafuné alheio,
você que não liga, olhos fixos na revista,
e que no entanto acolhia meu calor,
meu ardor, meus beijos detidos
vagarosos
inspecionando o sonho vivo que se me apresentava.
E eu me apaixonava, menina, e me perdia
tudo o que eu sabia é que esquecera
solenemente todo o resto, minha vida lhe entregava presto,
e entrego, entregaria ainda,
você tão linda, e meiga, e generosa,
mas você tão firme,
Menina-além-do-alcance…
Ah, o que é deste instante, o que é
do meu futuro sem você, sabê-la ausente,
vivente, distante, o lindo, gélido semblante
que não sabe de mim
nem mais ninguém?…
Menina, homem nenhum poderia
resistir à sua magia,
e nem o quereria, como não quero,
antes retê-la em sonho e vertigem
e delírio e bruma, ou mesmo
em pranto e desespero, tanto faz:

O que me importa, o que valeria
todo o vazio e desalento
seria, menina, em seus braços
— seus lábios —
apenas mais um, o mais breve
e fugidio

Momento.

Envergadura

Mas o que foi
daquela torre, da altura,
da floresta lá embaixo?

Pois só pisava lá
quem detinha o poder.

Esmaeceu,
sente-o furtado,
mas foi só
o que tinha de ser.

Hoje se embrenha em raízes, não é cego,
mas tropeça por olhar tão somente
para o alto.

Vê, comtempla esses charcos
e se esquece de vez
do ócio do sapo:
é seu somente o momento
de recomeçar.

Existe uma bênção, de que nunca se lembra
da falta de pedras no seu caminho.

Tem as rédeas nas mãos.
Deixa-os irem, sapos ou o quê
e retoma o curso que é seu.

Amarras soltas, pode finalmente
escolher a direção:
dirija-se, então.

Está cansado,
o corpo reclama e você ainda o maltrata,
a mente mal saiu da vertigem,
mal dirimiu a miragem,
está sem fôlego e a dúvida o assalta.

Mas que é da coragem que falta?
Acaso soldados outros que não os seus,
esses já caíram,
ameaçam-lhe à ponta da espada?

Anônimo finalmente, sabia que o dia
viria em que o teria de ser.

No entanto, brilha.

Sozinho, quieto, num canto. Mas brilha,
que a gema incandesce
de dentro,
e é pra dentro que se deve voltar por agora.

Não se aflija com a demora,
todo tempo é fugidio.
Lastros, voos,
cesse de se intoxicar!

Há uma força dormente,
mas quem dorme ainda vive;
na marcha fraca de quem sai de uma gruta
cego pelo sol, as suas mãos são trêmulas:
descubriu-se humano e frágil, contende
com a própria prostração:
saiba-o o normal
de quem rompe, irrompe de longa,
de uma horrenda hibernação.

Seu coração intui, não obstante,
um estandarte empoeirado
aguardando as suas mãos;
vem de distante passado,
atravessou os prados
e chora, silente:
não é de seu engenho fazê-lo esperar.

Recompõe a sua força, guerreiro,
que o que anseia também lhe espera,
e parte sem demora:

Segue com a força que tem.

Dentro de si um ímã atrai
uma agulha, segue o norte
que ela aponta:
a cada passo volta o tônus,
mister se o empreenda
como quem se conhece e sabe:
parar, agora, somente
para recarregar.

Ao norte é o seu estandarte,
retoma-o de direito:
antes de subir a torre,
de torná-lo a tremular,
cuida de sacudir-lhe a poeira:

Sabe aonde tem que chegar!

 

Contraste

 

Hora de jogar pra trás,
por detrás dos ombros,
ultrapassar as estátuas de sal.
Há que pausar a ceifa,
acumular a seiva,
talhar o passo em suor,
ser guerreiro,
que sonhar apenas
faz dias de vento.

A rua vazia não é poesia,
antes traz:
desalinho,
desconforto,
solidão.

Uma pilha de papéis rudes:
que fazer?

“O mundo não vale o mundo”,
hoje a lide moderna
despreza os sebos.

Parar de querer entender
se ausência ou estofo,
o que é que inquieta,
torce, arremessa,
extenua a alma perplexa,
inválida…

Enfim percebo, de soslaio,
o meu defeito, tão só meu,
displicentemente cultivado.

E o lavrador, alheio
acorda com o galo, mais feliz
do que jamais ousei:

para à porta, saúda o sol
e a sua muda prece é olhar o céu…

Sem vida

Estou doente.
Acho até que perdi meu ódio,
esqueci minha raiva no meio do caminho,
e agora nem adianta tentar:

A carne é surda,
a noite é perdida,
o dia não houve
e os deuses lhe acusam, dedo em riste.
Você vergonha,
você verme.

Heráldica

 

 
A vontade de fazer poesia passou.

Por agora. Talvez.

A alma dolorida de antes, pulsando,
a alma sangrando se deixou envolver
pelo lastro da ausência,
pela força rasteira,
pelo traço bruto de cada dia
– e pelos próprios brutos.

Mas, terá morrido?
Ou, o que é pior: sido vencida?

Hoje é de cisma e de vento
essa resistência débil,
a sombra esguia remonta ao passado
e nada mais;
é a chama que se não redesenha,
e o brilho – quão raro – resta mera
adivinhação; barata, e fugidia.

Vem então agora, ressequida estrela,
restituir a promessa,
alce-me de volta ao que nascia,
não permita pena assim infame
a um mero desvio infante, de quem só fugia
por se assustar com a dor, buscava apenas
um refúgio,
um aparte,
sem pressentir a besta e a apatia,
esses presentes tortos desses seres disformes e ocos.

No mais, o tom monocórdio
– deleteriamente recorrente –
cansa esta alma, ou o que restou dela.

Forçoso aprender novos ritmos.

Imperativo adentrar novos rumos, se quisermos
– se quisermos de verdade –
reaver o comando da luta
e o frêmito do mais puro estímulo,
aquele fogo que arroja adiante e recobra,
de um simples instante,
a juventude dos olhos e a vontade sagrada.

A vontade sagrada! Seja esta enfim, e sempre,
nosso símbolo, nosso moto, nosso brasão.

Contemporâneo

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Na multidão, os rostos fixos:
mesclados,
confundidos.

O que segue é esta urgência sem par,
que não se delineia por pura
inépcia ou galhofa, meus dias têm sido
– em vão – identificar-lhe a razão.

Sem siso, permito-me a lâmpada
quando o sol lá fora é alto
(menor, maior), pois quem por aqui o quer
afastando o sóbrio, circunspecto?

Medito certas frases – nunca minhas,
não as acho – e, nas poucas que lembro,
o lacre, de cera e vela – comprado em feira –
aparta-me de inspeção mais rigorosa.

E fica uma lembrança cinza. Diria antes:
intuição. Do que eu não vi, embora a vida
não descarte uma outra, de onde venha
todo o esboço, do talhe em pedra.
Pedra surda, sem imagem, impotente,
dias marcados com faca cega.

Não há ruína que sopre histórias,
tampouco a memória me serve:
hoje é preciso roubar das entranhas,
servir-se do nó na garganta,
adivinhar o perfume no ar.

Mas a certeza ficou tênue, bem assim
nega o próprio cerne e descrê da magia.
No bojo da herança, o frágil
reverbera: pode sim, não ter havido
qualquer passado:

a congruência, laços e nós, os dedos
entrelaçados, pura névoa, talvez:
sem o clangor das espadas, hoje o tempo
ainda é duro: não há épicos, nem fronteiras
a desbravar: mas somente

porque não se quer.

Além do alcance

É de crosta e pedrarias
toda a seda que se oferta assim – desentendida,
a quem não sabe – talvez não queira -
entender o seixo que se forma límpido,
disposto a perder-se dentre tanta normalidade,

dentre tanta superfície;

mas é do seixo pulsar inerte em recônditos
alheios à inspeção humana.

Então não me julgue – se sequer me entende.

Há formas diversas da beleza quanto rico é o que as cria:
desde mechas dum cabelo solto, ou lisura numa tez
- impensada, de tão perfeita -
quanto em olhos dum corvo que encanta o mundo.

Não lhe peço, não seria razoável,
que perceba entalhes na rocha trabalhada
pelas mãos mais sutis;
preciso é que enxergue
que há algo além do além:
pois que nossos grilhões são sempre toscos
- veja: são grilhões -

e o firmamento encerra, sem evite,

o que valha a pena qualquer tombo!

 

Vesano

Em vão perguntas,
A escuridão abarca.
A vida parece enfim (e que venha)
Chegar a seu termo.

No entanto, continua.
Que fiz eu, que faço
Para que se me tapasse a estrela
(binária, guia)?

Um ombro distante,
Um coquetel de calmantes
E a vontade de que nada
Haja, ou sobressaia:

O espírito ovóide
Gruda, esquece-se
O sol meramente atesta
O profundo da gruta,

Testemunha arrolada.

Pronto para nada. Fica sim,
A espera do efeito
Do rebojo, da voragem
Que me refaça a coragem
E restitua o eu.

No meio-tempo, limpar o vazio
Com gaze e desconsolo,
A vida não chegará
De siso (e não é siso de dente, caros alonsos, palonços) e poesia:
Que homem e mulher, se um dia a pensei

De uma matéria mais dócil
– rematada –
Eis que é nada, é tudo sumo

Da mesma choldra.

Sem desculpa

É como a noite que trucida a pretensão
oca de quem tenta, ainda que por breve instante,
fingir cintilar por entre o denso escuro,
mas o que traga a luz não conhece outro passo:
sobra o tatear vão.

Não poder explicar a covardia
é, como será,
a faca mais tardia neste lastro
neste passo, se é que existe:
O firmamento mudo.

Deus, soturno, repensa a tristeza:

pois que enfim roubou-lhe um coração.

Quando tudo teria valido a pena

Uma saudade me sufoca,
mas simplesmente desespera sabê-la
sem objeto:
saudade de que?

Como os livros de história, vontade
de entrar ali,
no que me vem vivo
estando no entanto morto.

Tenho uma adaga no peito
girando devagar, e a cada grau
a vista aperta, a certeza
de um grande amor, perdido no tempo.

Um amor que tudo vence,
morte, distância, o tempo mesmo.
E meu coração acredita
que um dia há de voltar.

No meio-tempo, sem ele, sem sua potestade arrebatadora indescritível,
tudo vai ficando cinza, e os anos
passam,
pois para aquele que, de alguma forma,
sabe que sabe vivê-lo, em toda nuance,
estar sem ele é não-estar,

é não-viver,

e os meios-amores de praxe que pululam
não interessam, não apetecem,
melhor ficar assim,
sozinho, amargo,
definhando os dias
em gládios que ninguém entende.

Uma hora, eis que este amor retorna,
ou me liberto eu
– que a morte é nossa única certeza –
e vôo ao seu encontro,

minha sentença,
minha redenção,

e a mim – que nunca vi a Deus –
ele me basta, humano
quanto possível;

não saberia dizer no entanto
do encanto
que seria ter quem soubesse, e vivesse
a sintonia – a mais fina –
dos recônditos de mim,
e assim me fizesse bater
– enfim! –
num compasso (não menos que)

Perfeito.

Já me basta

Você nem sabe a luz que trouxe
E eu nem mesmo sei
Se foi sua intenção.

De qualquer jeito, esse seu jeito
De iluminar minh’amplidão
Já me tinge, à minha fonte
– Poe, Rimbaud e escuridão –
Doutros ares, e me sinto eu
– sabendo-me o que era a todo tempo –
Noutras lavras, noutro instante
Mais fiel ao meu princípio.

Se sequer houve um início
Já me basta a inspiração.

À Deidade Insondável

Mistério. Puro mistério.

Mistério o não saber a ponto de saber-se oco
Sem compaixão,
Intocável pela leveza, pelo que arrebata
Por aquilo que num torvelinho enleva a alma
E faz discernir o que vale,
E num instante pode mudar tudo.

Mistério.

Mistério estar cercado disso
Dessa eterna ausência

Como um peixe fora d’água

Sufocando devagar.

Madrugada

De novo vou eu, ausente de vontade,
como se outro me comandasse.
Saio, sabendo que preferia
ficar em casa.
De novo juntar-me ao estéril,
em volta a uma mesa, regada a cerveja
e uma gravidade que escoa,
anula as horas.

O pensamento vago, distante…
Por que insistir nesse instante?
Se me retirasse não faria diferença,

mas minha reverência oca se preocupa

com quem não se preocupa com nada.

Dia seguinte, alma quebrada, alquebrada,
nada resta da mesa:
histórias, lições,
lembrança menor:
bloqueadas como uma defesa, um escudo.

Alívio: já passou;
mas fica um espinho, triste, no coração:
cedo ou tarde, recomeço.

À tona

Que isto me baste!
O que?
Nada, foi só um pensamento,
O tormento de um ócio relativo
Que sorve a gravidade.

Erro tanto, e vem a claridade
Dadivosa,
Conceder ao espinho da rosa
Uns segundos mais de paz.

Apertar o torniquete agora:
Falta pouco, o socorro à vista,
Mas a nuvem veda a claridade.

Calar ao chamado da cidade
E reabrir minha vida nesses tomos,
Alfarrábios,
Que outrora tanto me apartavam

A soldar o zíper no sorriso.

Alargar a alma, devagar,
desta vida nada se leva:
Mergulhar nessa Pessoa,
Cravar a Bandeira
Mesmo que o outro não queira,
Aquele que insisto em perder de mim.

 

Misantropo

Quero me embeber nesta vodca torta,
calar-me em calmantes,
atar-me em braços, pernas,
mordaça,
prender-me em grilhões

da liga mais dura,
suprimir o sol da vidraça,
sorver o diesel,
sufocar na fumaça;

costurem meus olhos,
arranquem-me a língua
(selem esta boca mordaz),
estiquem-me duro ao sol – sem dó,
e por fim me arrastem:

sobre o pó, aos poucos,
devagar,
em rapé,
subtraiam-me as escrituras
e me queimem toda, qualquer fé:

Façam
desfaçam
gritem
desdenhem
pulem
mutilem
levantem a estaca e preparem a fogueira,
oh brancos, negros, amarelos, vermelhos:

No fim, há uma só verdade:
não importa a sua maldade,
façam o que for:

Bradem ou calem,
Sintam meu desdém:
De tudo o que lhes vi
E vivi

Sou sobrante a toda dor.

Aos seres da noite

Guardem sua bravata às avessas,
seu orgulho do atraso
calem este sorriso que fere a própria idiotia:

Dêem-me tempo ao menos de escudar-me
em meu cansaço,
que meu tempo é oco e escasso,

e preciso decifrar os escombros
antes que as cinzas do sonho
em urna se cerrem, silentes.

Não ousem convocar-me à poeira,
que meu silêncio é de cera,
porcelana meu fastio:
apartem de mim seu vazio,
que me baste a miopia:

o rebate reticente
- refratário -,

eis que cresce,

e rodopia.

Acórdão

Já me apronto, e tudo temo
a me arriscar, quando de pronto
eis que bato à porta,
tudo se entorta, detém
(tenho que deixar-me entrar!),
e cá volto eu, ensimesmado,
decifrando recomeçar.

Decido:
não será, ainda que sangre,
uma sangria do meu sangue!

O sol ameaça me alcançar,
mas e daí? Recrudescer?
Rechaçá-lo nunca,
o que me trunca é de outras lavras.

Tinha resolvido

Livrar-me de mim, aos pouquinhos,

– Mas me avessei de imediato:

que Roma, se a vi – feita não num dia –
noutra era é que eu vivia.

Então brado – eloqüente! –
ao que presto ora me sente
se me tome, de repente,
e me erija o que previ:

não é mais hora de sono
neste outono brizomante:
que se faça, de um instante
do carbono o diamante.

Sempre diga nunca


Vou sair.
De novo entre os ébrios
sem sopro ou propósito, desdenhar
as palavras, num desprezo que pega,
sacode e arremessa,
e me vejo riso idiota
reincidente nos espinhos.

Outra cerveja, garçon, sem por favor.
Ficaremos aqui,
estéreis,
relevando os palcos

dos que cuidam cerzir a noite
em zelo e destreza..

Na volta os anjos lamentam:
o mesmo carro leva ao templo
e à lama.

Por que, se a dor paralisa?
Alimentar a cruz, e tentar – em vão -
escondê-la sob o casaco?

Nos olhos em volta da mesa,

A consciência intocada

Pasma!,
como um quebra-cabeça divino,
uma piada velada, reticente.

Pena em dobro aos que sabemos,

e fazemos da fala

Mera falácia.

Aos poucos que vêem

Sabe, há momentos mais confusos
do que há de querer crer nossa vontade cedida;
não quero mais o desfile da sombra,
pois que a há mesmo nas faces mais singelas.
Não se pode fugir de nossa estada.
E aqui, o estado das coisas é o que vê
(claramente)
o castigado pela estesia
e bem assim eterno proscrito.

Voto aos que enxergam
que um dia encontrem par
(único que seja)
para que a dor se alivie
e algo enfim faça sentido.
Pena o pesar desta minha

- absoluta –

descrença.