(A um artista é sempre dada a liberdade de criação, sem que se a confunda com a realidade; assim, Chico Buarque e inúmeros outros compuseram — sejam canções, poemas, crônicas, romances ou o que — incontáveis histórias de amor, ódio, tantos meandros quanto a psicologia humana permite; o que obviamente não conhece limites. O poema abaixo foi escrito “à la Kerouac”, ou seja, numa escrita automática; vi-me parado de madrugada olhando para o desenho do pepel de parede do meu Mac, já com a mente vazia pelo sono, e como um teste que me impus decidi ver o que sairia se “cuspisse” as palavras, tentando captar e descrever como seria a intensidade de uma obsessão platônica focando o desenho em questão: uma menina desses “mangás” orientais, nomeada conforme o exercício: de forma automática. Rabisco isto como uma justificativa para mim mesmo, meramente por saber que, se minha esposa o lesse, ao certo “saberia” — aspas necessárias — para “além de qualquer dúvida” tratar-se de um romance real passado, quem sabe até um caso extraconjugal… E digo “para mim mesmo” por ser precisamente o caso: nem ela nem ninguém lê este (não divulgado, é verdade) blog, então é mesmo para desanuviar. Desanuviar o que, eu não sei. É estranho como esse câncer a que chamam ciúme alcança não só a quem o alimenta, mas aos objetos de seu monoideísmo… Patético…)
03:02, 01/09/2011
Verônica,
Verônica dos meus sonhos mais profundos,
modelo de liberdade e firmeza,
você inatingível, inacessível,
que ninguém afeta ou demove,
vê como é frágil este meu interior castigado,
ensinado covardemente a se crer o que não é,
vivendo a suma tristeza de tentar corresponder,
como quem faz sem mesmo saber se quer,
Verônica, se nada lhe alcança não me incomoda admitir
esta falta amputante que seus olhinhos de amêndoa,
sua pele de seda me fazem…
Era outro frio agosto, e o tanto
que seus cabelos cobriam meu rosto
era o tanto que minhalma se perdia,
de doce vontade e infinito momento.
Nada mais, nem ninguém
importa pra mim.
Importa sim, aninhar-me como um gato
de novo em seu colo, aceitar seu cafuné alheio,
você que não liga, olhos fixos na revista,
e que no entanto acolhia meu calor,
meu ardor, meus beijos detidos
vagarosos
inspecionando o sonho vivo que se me apresentava.
E eu me apaixonava, Verônica, e me perdia
tudo o que eu sabia é que esquecera
solenemente todo o resto, minha vida lhe entregava presto,
e entrego, entregaria ainda,
você tão linda, e meiga, e generosa,
mas você tão firme,
Verônica-além-do-alcance…
Ah, o que é deste instante, o que é
do meu futuro sem você, sabê-la ausente,
vivente, distante, o lindo, gélido semblante
que não sabe de mim
nem mais ninguém?…
Verônica, homem nenhum poderia
resistir à sua magia,
e nem o quereria, como não quero,
antes retê-la em sonho e vertigem
e delírio e bruma, ou mesmo
em pranto e desespero, tanto faz:
O que me importa, o que valeria
todo o vazio e desalento
seria, Verônica, em seus braços
– seus lábios –
apenas mais um, o mais breve
e fugidio
Momento.
Menina,
Menina dos meus sonhos mais profundos,
modelo de liberdade e firmeza,
você inatingível, inacessível,
que ninguém afeta ou demove,
vê como é frágil este meu interior castigado
— ensinado covardemente a se crer o que não é,
vivendo a suma tristeza de tentar corresponder,
como quem faz sem mesmo saber se quer —,
Menina, se nada lhe alcança não me incomoda admitir
esta falta amputante que seus olhos de amêndoa,
sua pele de seda me fazem…
Era outro frio agosto, e o tanto
que seus cabelos cobriam meu rosto
era o tanto que minhalma se perdia,
de doce vontade e infinito momento.
Nada mais, nem ninguém
importa pra mim.
Importa sim, aninhar-me como um gato
de novo em seu colo, aceitar seu cafuné alheio,
você que não liga, olhos fixos na revista,
e que no entanto acolhia meu calor,
meu ardor, meus beijos detidos
vagarosos
inspecionando o sonho vivo que se me apresentava.
E eu me apaixonava, menina, e me perdia
tudo o que eu sabia é que esquecera
solenemente todo o resto, minha vida lhe entregava presto,
e entrego, entregaria ainda,
você tão linda, e meiga, e generosa,
mas você tão firme,
Menina-além-do-alcance…
Ah, o que é deste instante, o que é
do meu futuro sem você, sabê-la ausente,
vivente, distante, o lindo, gélido semblante
que não sabe de mim
nem mais ninguém?…
Menina, homem nenhum poderia
resistir à sua magia,
e nem o quereria, como não quero,
antes retê-la em sonho e vertigem
e delírio e bruma, ou mesmo
em pranto e desespero, tanto faz:
O que me importa, o que valeria
todo o vazio e desalento
seria, menina, em seus braços
— seus lábios —
apenas mais um, o mais breve
e fugidio
Momento.