Sacrifício

Não sei mais cantar como antes.
Já não logro me ater à escrivaninha
e aquela verve furiosa, que pensava minha
fugiu-me por tudo de torto que insisti em ser.

Era o que me redimia,
o que me revivia,
hoje tua ausência me contorce,
espedaça,
sorvo o diesel, expiro a fumaça,
é surda e rouca e insana essa busca estéril,
cega, maldita adaga que gira e rasga,
já que cravar nunca é o bastante!

Volta, que te oferto o sangue em holocausto;
é um sangue maculado em ranço,
fosco, frio e coagulado,
mas toma-o ditoso e fausto,
este mesmo dantes te ofertado
nas noites mais negras e graves,
tateando ao rés do meio-fio.

Ventura, julgava-te miséria,
e suma desgraça é ver-te esvaindo lépida,
tu que tornas às alturas e me rendes murcho a essa malta,
a essa súcia rota em vielas de fungo,
essas cascas ocas coxeando na bruma,
lambendo o mofo dos tijolos de pedra.

Volta, restitui-me o traço,
devolve-me o fel,
mas guia e gasta este braço
— Que te ofereço o fogo,
jamais o mormaço:
suga meu plasma como melhor te aprouver.

Nunca me intentaste morno, e é por ti
que retomo o fole, reavivo o forno.

Queima em mim, que me curvo,
e de ti por fim lançarei teu brasão.

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